“A sociedade digital não é mais exclusividade dos Millennials”

Estreia da LIVE 300 CEOs destaca como a cultura corporativa se transformou do dia para noite com chegada da COVID-19

Publicado em 30 de março de 2020

Nenhum CEO ou empresário a essa altura tem dúvida: em poucas semanas o coronavírus fez mais pela transformação digital do que evangelizadores, startups e consultores conseguiram em anos de trabalho sério e dedicado. A mudança cultural é profunda e, apesar da tragédia sanitária que se espalha por todo o mundo, a pandemia trará inovações que serão positivas para a sociedade, a economia e o meio ambiente no futuro.

Esta foi uma das conclusões mais importantes da edição de estreia da série LIVE 300 CEOs, transmitida nesta segunda-feira, 30 de março, pelo Experience Club. Na bancada virtual cinco líderes de empresas protagonizaram o debate, que teve mais de 300 CEOs convidados na audiência, além do canal aberto para todos os espectadores. Com moderação do CEO do Experience Club, Ricardo Natale, a live teve a presença de Andrea Mansano (EF), Marcos Matias (Schneider Electric), Paulo Correa (C&A), Alex Salgado (VIVO Empresas) e Sandro Rodrigues (Hinode). O debate contoucom patrocínio da Vivo Empresas.

À frente da operação brasileira de uma empresa que atua em mais de 100 países, Marcos Matias destacou como o coronavírus democratizou de maneira fulminante a cultura do trabalho digital. “A sociedade digital não é mais exclusividade dos Millennials e agora pertence a todo mundo. Foi um processo de amadurecimento muito rápido”, destacou o presidente da Schneider Electric.

Já para a presidente para a América Latina da EF Education First, pelo fato de a companhia ter no DNA o modelo digital, a virada de chave, em termos técnicos, foi tranquila.

“Por conta das restrições, a nossa demanda digital vem aumentando absurdamente” – Andrea Mansano

Mas não sem sentir o impacto da quarentena: são 600 escolas da EF no mundo e as aulas presenciais do primeiro semestre acabaram comprometidas.

Paulo Corrêa, CEO da C&A, sentiu na pele essa transformação. “Eu, que não era especialista em home office de jeito nenhum, aprendi em uma semana todas as ferramentas possíveis de trabalho remoto e senti de maneira impressionante como aumentou o engajamento e a produtividade do time do como um todo”, avaliou. Com um detalhe interessante: nas calls, as pessoas estão ouvindo mais o outro.

GESTÃO DE NEGÓCIOS

Um dos pontos de destaque no LIVE 300 foi a troca de experiência dos CEOs em relação ao dia a dia do negócio. Com as severas restrições de circulação em todo o país, o maior desafio das empresas é manter o negócio funcionando minimamente, sobretudo para quem mantém contato direto com o cliente final.

Sandro Rodrigues, presidente da Hinode, destaca que a reformulação implementada ao longo do ano passado no e commerce, no ar desde janeiro, chegou no momento exato para enfrentar a crise. “Criamos novos serviços, como o Hinode Prime, por meio do qual o consultor consegue fazer o pedido, criar um link e distribuir para a sua rede de contato. Na semana passada, vimos um crescimento de 60% de demanda, em comparação ao mesmo período no ano passado”, destacou.

Já as 450 franquias continuam abertas e funcionando por delivery, em parceria firmada com a Loggi.

“Agora só existe uma loja aberta, o ecommerce, por isso canalizamos toda a nossa energia para tirar o máximo proveito do canal online” – Paulo Correa

Ele calcula a interrupção de até 90% da receita da companhia com o fechamento das unidades físicas, que são estão perto de 300 no país. Contando com investimento de marketing no BBB Brasil, a ação foi fundamental para levar tráfego e dar sustentação às vendas. Para o CEO da C&A, a quarentena traz uma oportunidade de mercado: reforça o conceito de omni canalidade e impulsiona a cultura do consumo digital em um segmento muito dependente do varejo físico, a moda.

INFRAESTRUTURA

Se para algumas empresas o fluxo de caixa é a questão central, em outras é o atendimento ao cliente que não pode ser interrompido, por mais crítico que seja o cenário. Alex Salgado, vice-presidente B2B da Telefônica Brasil, que opera com a marca VIVO Empresas, afirma que a empresa já vinha se preparando para um cenário de hiperconectividade e a experiência do coronavírus na Europa não deixou a operação local às escuras.

“A nossa infraestrutura no Brasil vai segurar. Como o tema chegou na Espanha antes, conseguimos preparar bem o nosso home office para o administrativo” – Alex Salgado

“No caso dos canais de vendas, para que pudessem ser preservados, investimos no aluguel de computadores, celulares e disponibilizamos modems, especialmente para as atividades de call center”, acrescentou.

Assim como a infraestrutura de dados e telecomunicações, assegurar o funcionamento dos sistemas elétricos exige mobilização total da Schneider Electric. A companhia, que sentiu na prática o impacto do fechamento de uma fábrica por decreto em Wuhan, de onde partiu a pandemia na China, montou um protocolo especial para assegurar o funcionamento das unidades no Brasil, todas abertas até aqui.

Os colaboradores de áreas administrativas estão 100% em home office, enquanto a empresa montou um sistema rígido de segurança sanitária nas fábricas. Para a Schneider, é crucial garantir peças de reposição de atendimento técnico aos clientes, especialmente hospitais e serviço de atendimento básico da população. “O que me deixa impressionado até agora é o baixíssimo nível de absenteísmo nas fábricas, inferior a 5%. Todos os colaboradores estão muito engajados em trabalhar e ajudar como podem nesse momento de crise”, enfatizou Matias.

ECONOMIA

A unanimidade no debate do LIVE 300 CEOs é garantir a integridade dos colaboradores e da população, segundo os protocolos que vem sendo recomendados pelo Ministério da Saúde e organismos internacionais. Mas é o enorme desafio de sustentar a economia em um cenário de quarentena prolongada.

Andrea destaca que a preocupação maior da EF Education First é com a rede de 27 mil professores, mas que a alta na demanda dos canais digitais está ajudando na realocação dos profissionais no período da quarentena, evitando também a ruptura da atividade letiva com os alunos.

“As grandes companhias e o governo precisam se mobilizar agora em prol das pequenas empresas”, sintetizou Salgado, da VIVO Empresas.

O presidente da Hinode acrescenta que “a decisão é muito dura, mas estamos seguindo os protocolos de saúde”.

“Entre vida e economia, você vai escolher o quê? A vida. Vamos chegar no final desta crise, uns mais, outros menos desidratados. A economia a gente recupera, mas a vida não” – Sandro Rodrigues

O empresário diz não trabalhar com o cenário de fechamento de franqueados e que havia preparado a produção para atender à demanda dos produtos de higiene e maior giro, para impactar o mínimo possível nos estoques. Mas acredita que medidas do governo serão necessárias para evitar a ruptura da operação das pequenas e médias empresas, que vão sofrer mais com uma quarentena prolongada.

SAÚDE MENTAL

Se o desafio de evitar a contaminação e retomar a economia já são imensos, os CEOs também manifestam preocupação com a saúde mental dos colaboradores, considerando um período superior a 30 dias de isolamento social.

“Precisamos dar mais atenção ao equilíbrio emocional. Nós criamos um canal de consulta psicológica online para atender os colaboradores que começam a manifestar problemas de ansiedade” – Marcos Matias

Andrea vai na mesma linha e conta que uma profissional na Inglaterra tem feito sessões de mindfulness para começar o dia, e a empresa vem promovendo encontros de happy hour virtuais com milhares de pessoas para motivar as equipes.

Rodrigues aposta no poder motivador do empreendedorismo. “Na Hinode trabalhamos com 300 mil pessoas ativas com atitude empreendedora, com vontade de fazer, de mudar de vida. Gente que acredita que não é a circunstância que determina o sonho”, afirmou.

“Toda grande crise traz mudanças e mudanças para melhor”.

Texto: Luana Dalmolin e Arnaldo Comin

Imagens: Reprodução